Muita coisa nessa vida ainda me causa estranheza, apesar de toda a experiência adquirida em anos de estrada. Experiência que me alerta sobre a necessidade de estar preparado para assistir às mais descabidas atitudes humanas de aqui e de acolá. Afinal, já se viu de tudo neste mundo: de situações ridículas e hilariantes a cenas grotescas do cotidiano protagonizadas, sobretudo, pela violência. Chamo de estranhos alguns acontecimentos, dada a minha incapacidade de vê-los com a naturalidade que outros veem. Notícias de crimes bárbaros circulam todos os dias. Aliás, considero todos os crimes bárbaros. Por isso, essa expressão também me causa estranheza, uma vez que tirar a vida de alguém para lhe tomar um objeto de valor, por si só, é ato ligado à barbárie. Barbárie dos novos tempos? Não, de sempre. O ser humano propenso a atos violentos parece que já traz a maldade no cerne. Talvez a sua estrutura genética tenha sido constituída, toda ela, com os genes do mal. De outra forma, como explicar a brutalidade e o ódio disseminados nos quatro cantos do mundo em qualquer tempo? A diferença é que a tecnologia facilita as coisas em dias atuais. A era da informação, por exemplo, rapidamente se tornou a era da desinformação, da mentira que circula por todas as telas, que não deixam mais os olhos das pessoas, estimulando-as a digerir muito lixo ao invés de conteúdo informativo. Tudo isso propagado com o firme propósito de levar a gente desatenta a acreditar naquilo que convém a uns poucos. Mesmo assim, em pleno século XXI, século tecnológico, situações desesperadoras que se viu em períodos remotos também são frequentes, e em número cada vez maior. Falo de torturas, crimes por encomenda, execução de desafetos e… Outra barbaridade, relatada fartamente pelos noticiários, está relacionada ao episódio recente em que pessoas trabalhavam em situação análoga à escravidão. Diga-se de passagem, é mais uma expressão que me causa estranheza. Por que não dizer “pessoas escravizadas”? Talvez algum capricho do nosso rico idioma, aliado às regras jurídicas que não permitem que se diga isso ou aquilo. É preciso ter cuidado, afinal, no trato com as palavras. Da mesma forma estranha é a postura do torcedor que vai a um estádio de futebol com o intuito único de brigar. É o que aconteceu dia desses numa cidade que tinha tudo para ser maravilhosa. A contenda resultou em morte e em gente hospitalizada com o crânio inchado de tanto tomar porrada. Isso não pode ser considerado normal. Os jornais relatam que os amantes do futebol foram para o evento portando pedaços de pau, soco inglês e demais objetos normalmente utilizados para derrubar o moral físico e psicológico do torcedor oponente. Tão brutal como a briga entre torcidas, inclusive, é o desvio de dinheiro público que torna robusta a conta bancária de uns poucos. Grana esta empenhada para evitar que pessoas morram em áreas de risco. O resultado é uma enxurrada de lágrimas nos dias de chuva muito forte. Rodolfo de Souza nasceu e mora em Santo André. É professor e autor do blog cafeecronicas.com
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