ENTRETENIMENTO

Vôlei Feminino: Ex-líbero Fabi relembra elogio de Eurico quando jogava no Vasco

Vôlei Feminino: Ex-líbero Fabi relembra elogio de Eurico quando jogava no Vasco

Fabi lembra defesa com pé, ausência da Rio 2016 e derrota mais dura

“Vivi muito mais do que imaginei”. Com essa frase, Fabiana Alvim de Oliveira, a Fabi, resume uma trajetória marcada pela sucessão de acontecimentos improváveis. Ainda criança, se apaixonou pelo vôlei no condomínio em que morava, em Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Para jogar, superou a desconfiança dos pais e o domínio territorial dos meninos, que comandavam a quadra de esportes. Mesmo com 1,66m, brilhou como ponteira e central nas categorias de base do Flamengo. E, quando a baixa estatura ameaçou encerrar a carreira de atleta, conseguiu se profissionalizar graças ao surgimento de uma nova posição.

Fabi conta como defesa com o pé em Londres 2012 a reconectou com o pai

É verdade que, inicialmente, Fabi descartou a ideia de ser líbero. Não via graça em jogar sem pontuar, atacar, bloquear ou sacar. Mas acabou convencida por um técnico da base e mudou de posição. A escolha fez com que a carioca construísse uma história de sucesso, mesmo sem defender um único clube de fora do estado do Rio de Janeiro. Conquistou dois ouros em Olimpíadas e, neste sábado (17), aos 46 anos, será oficialmente introduzida ao Hall da Fama do vôlei.

– A beleza do líbero está no altruísmo. É uma posição que foi feita para servir ao time. O meu olhar para a vida, para o mundo, para as pessoas, quando eu penso na Fabiana mulher…. Metade da minha vida foi vivida por meio desse sentimento de servir. Jogar como líbero é um exercício diário de humildade. Essa posição foi criada para ser mais uma, porque você não faz um ponto em um esporte que vive disso. O líbero, por mais que tenha jogadas lindas, é muito mais o coração do time, naquele lugar do operário que passa despercebido – refletiu Fabi, em entrevista ao “Abre Aspas”, do ge.

Entre todos os momentos de glória como líbero nas quadras, um ficou guardado na memória de Fabi: a defesa com o pé no jogo entre Brasil e Coreia do Sul, pela fase de grupos das Olimpíadas de Londres, em 2012. O lance repercute até hoje, 14 anos depois, mas, para a ex-jogadora, tem um peso que vai muito além do esporte.

– A defesa com o pé conversa com uma menina que só queria jogar bola quando era garota. Meu pai (José Maurílio) falava para a minha mãe (Vera): “A tua filha está lá embaixo”. Aquilo, para ele, era cuidado. Naquele momento, eu era filha da minha mãe. Meu pai trabalhava como taxista (hoje está aposentado) e aprendeu a colocar o vídeo da defesa no celular para mostrar aos passageiros. Com aquela bola em Londres, me transformo também na filha do meu pai. É um lance emblemático, inusitado, mas, no meu coração, tem um lugar que justifica tudo – disse uma emocionada Fabi.

Em conversa de quase duas horas, a agora comentarista da Globo repassou vários momentos da vida. Na seleção, sofreu o baque de ficar fora das Olimpíadas de Atenas e se consagrou com os ouros em Pequim 2008 e Londres 2012. Por clubes, teve a oportunidade de representar o Flamengo, time do coração, mas também passou por um rival. Com a camisa do Vasco, inclusive, enfrentou o Rubro-Negro nas finais da Superliga de 2000/2001, diante de um Maracanãzinho lotado. Na ocasião, mesmo derrotada, Fabi recebeu um elogio curioso de Eurico Miranda, icônico presidente vascaíno.

Rubro-negra, Fabi conta como foi defender o Vasco

– Era uma série melhor de 5, e o Flamengo vence por 3 a 1. Vou para o exame antidoping. Quando volto, está o doutor Eurico falando com todo mundo. Chego atrasada, mas querendo participar da conversa final. Entro, ele bota a mão no meu ombro e diz: “Talvez vocês não saibam o que significa um Flamengo x Vasco. Essa aqui sabe”. E ele abraçado comigo. “Independentemente do que aconteceu, espero que entendam o amor por essa camisa, a dimensão desse clássico”. E o tempo inteiro me colocando como símbolo. Meu Deus, mal sabia ele que sou Flamengo. Mas foi um dos elogios mais bonitos que pude receber – contou a bicampeã olímpica.

Ao longo da carreira, Fabi teve a oportunidade de trabalhar com dois dos maiores técnicos da história: Bernardinho e Zé Roberto Guimarães. Além das medalhas olímpicas, conquistou outros títulos com a seleção brasileira e se sagrou campeã da Superliga Feminina 10 vezes. Para muitos, é a melhor líbero de todos os tempos. A entrada no Hall da Fama, então, soa como algo natural. Mas não para Fabi.

– Jamais imaginei que pudesse acontecer algo próximo disso.

Fabi lembra jogo em São Januário e revela se já cantou o “Casaca”

Ficha técnica

  • Nome: Fabiana Alvim de Oliveira
  • Apelido: Fabi
  • Idade: 46 anos (7 de março de 1980)
  • Carreira na quadra: Macaé, Flamengo, Vasco, Campos e Rio de Janeiro (hoje chamado de Sesc-Flamengo)
  • Principais conquistas: dois ouros olímpicos (Pequim 2008 e Londres 2012); seis títulos do Grand Prix; dois ouros na Copa dos Campeões da Federação Internacional de Vôlei (FIVB); campeã pan-americana (Guadalajara 2011); 10 troféus da Superliga Feminina; tetracampeã do Sul-Americano de Clubes.

Abre Aspas: Fabi Alvim

ge: Você jogou futebol, basquete. Por que o vôlei te conquistou?

– Foi influência das Olimpíadas de 92, da chegada dessas referências, de ídolos, em zonas que têm menos oportunidades. Sempre fui uma menina de brincar na rua, de experimentar tudo, e havia duas quadras onde eu morava, em Irajá. Impreterivelmente, uma era do futebol, e a outra servia para tudo: bicicleta, patins, o que quisessem. Mas o ouro olímpico da seleção masculina fez a galera jogar vôlei. Experimentei um pouco de tudo, e, em teoria, o vôlei me aceitava mais. Se não tivesse vaga no futebol, a quadra de vôlei estava ali. Eu tinha 12 anos. Era praticamente a única menina e precisava de artimanhas e estratégias para jogar. Eu marcava o placar, sempre faltava alguém…. Não era todo mundo que praticava vôlei. Normalmente ficava no vôlei quem era excluído do futebol (risos), tinha uma certa empatia no ambiente. Guardo muitas lembranças da febre pós-Barcelona, que se refletiu nas zonas periféricas.

Quando chega aquele momento crucial de decidir uma profissão, como sua família absorveu a opção por ser atleta?

– Com 12 anos, eu estava no Grêmio de Vista Alegre e comecei a participar de pequenas competições. Fui jogar um campeonato no estacionamento de um shopping de Madureira. Um treinador me viu jogar e convidou três meninas para fazer um teste no Flamengo. Só eu passei. E comecei a treinar com o time mirim do clube. Estudava até meio-dia em uma escola pública e precisava estar 13h30 na Gávea, de ônibus, sozinha. Para essa operação acontecer, muita coisa tinha que dar certo. Um pouco dessa “ingenuidade” dos meus pais, uma coisa pura deles… É insano pensar que uma menina saía da escola para o Flamengo, sozinha, fazendo baldeação, pegando dois ônibus, sem informação nenhuma. E o que você tem que fazer? Olhar o outro, perguntar, se virar. Convencer os meus pais foi, de certa forma, tranquilo no início. Começo no mirim, cresço no infantil e vou chegando na fase de pensar no estudo. Sou da primeira geração da minha família que completou o Ensino Médio. Meus pais pararam de estudar, então queriam que meu irmão e eu estudássemos. Quando eu completo o segundo grau, faço dois períodos de faculdade, inclusive. A decisão de me dedicar só ao esporte veio depois.

Como foi conciliar os estudos no colégio, a faculdade de Educação Física e o vôlei?

– Eu levo as coisas muito bem. Você vai vendo que é pequena, escuta as pessoas falarem: “Poxa, a Fabi joga tão bem, pena que é pequenininha”. E começa a entender que talvez o esporte seja uma passagem da sua vida. Estava claro o que as pessoas pensavam, não o que eu pensava. É muito louco, porque sempre achei que ia jogar vôlei. Se você me pedir um motivo para isso, em vez de seguir o caminho dos estudos, acho que é o sonho mesmo. Eu sonhava tanto… Via a Mireya jogar e achava que dava. “Tem uma pequenininha ali”. Eram pouquíssimas parecidas comigo no tamanho… O que eu ouvia era: “Não vai dar para jogar vôlei profissionalmente”. O Rio não tinha um time profissional. Muitas coisas aconteceram e ajudaram nesse sonho. Eis que, em 1998, a posição de líbero é oficializada, no meu último ano de juvenil, e montam um time em Macaé. Eu recebo um convite, e, aí, entra em jogo a Fabi argumentativa, que precisava convencer meus pais de que o esporte poderia ser uma profissão. A probabilidade de eu jogar vôlei profissionalmente era muito pequena. Muitas coisas se encontraram para eu virar profissional.

Você ia aos jogos de vôlei do Brasil? Era uma menina que gostava do esporte e tinha os campeões olímpicos de 1992 como ídolos?

– Eu frequentava muito as arquibancadas. Depois da medalha de ouro, a seleção joga uma Liga Mundial no Rio de Janeiro, e fui assistir. Tenho histórias ótimas, recordação de ficar impressionada com o Maracanãzinho. E tenho uma recordação não muito boa (risos), de fã. Estava com umas amigas, todas de papel e caneta nas mãos, para pedir autógrafos. O Maracanãzinho muito diferente, cabia muito mais gente. Ficamos próximas à quadra, e lembro do Giovane, grande ícone, expoente daquela geração, talvez o mais badalado. Ele deu autógrafos para as minhas amigas e, na minha vez, foi embora. Nossa, eu saí magoadíssima, tristíssima (risos). Hoje entendo perfeitamente que não era pessoal, mas na hora dá uma desilusão. Aquela geração é primordial para a minha escolha pelo esporte. Tande, Giovane, Marcelo Negrão, Maurício… O Flamengo monta um time no masculino que vai disputar a Superliga, em meio a um projeto de trazer ídolos ao Brasil. O Talmo e o Tande vêm para o Flamengo. Eles foram muito responsáveis por eu quase repetir de ano, porque matava aula para ver os treinos, fiquei amiga deles. Eu adorava, era uma fã que frequentava os jogos. E era rata do vôlei de praia também, ficava voluntariamente pegando bola para as duplas. Catei bola para Adriana Behar e Shelda, Jackie e Sandra, treinei com elas. A Shelda era pequenininha. Eu achava que ela era do meu tamanho, mas ela diz que tem um pouco mais. Shelda e Mireya foram minhas referências. Referências por ausência de padrão, sabe? Alimentavam aquela menina que não se encaixava muito. Não eram grandes e viraram estrelas da modalidade que eu mais amava.

Essa falta de padrão te fez querer mais?

– Nenhuma dúvida. A gente recebe muitos “nãos” na vida. É humano alguém falar: “Isso não dá”. E você tem o ímpeto de dizer: “Vai dar, sim, quer ver?”. À medida que você vai ganhando repertório, esses “nãos” viram combustível. Você quer fazer por você, pela paixão ao esporte e para provar que dá. Isso é muito humano. É preciso ter sabedoria para transformar as respostas negativas em motivação. Faz parte da trajetória. Certamente a ausência de padrões me dava desconforto e, ao mesmo tempo, funcionava como combustível.

De que forma a menina acostumada aos “nãos” recebeu a oficialização da posição de líbero na mesma época que estava se profissionalizando?

– O primeiro contato com a descoberta é engraçadíssimo e poderia ter dado muito errado. O vôlei mudou muito ao longo dos anos, e a criação da função de líbero é uma das alterações mais impactantes. Num esporte sem empate, que vive de pontos, inventam uma posição em que você conseguia fazer, no início, dois fundamentos e ficava de fora da graça do esporte, que eram os pontos. A posição entra em teste um ano antes, em um Grand Prix. O líbero usava a mesma roupa de todo mundo e colocava um colete por cima. Eu nem percebi, nem sabia quem era aquela pessoa de colete. Não tinha prestado atenção. Um belo dia, o técnico do juvenil falou para mim: “Fabi, você viu que lançaram uma posição nova? Tem uma boa chance pintando aí. Não precisa atacar”. Eu perguntei: “O que o líbero faz?”. Ele respondeu: “Vou começar pelo que não faz. Ele não ataca, não saca, não bloqueia e não faz ponto”. Pô, cara, eu dei uma gargalhada. Está de brincadeira! Até o goleiro faz gol. O que ele estava me dizendo era um dos maiores absurdos, um insulto. Mas ele estava vendo mais à frente.

– Eu fui para casa muito brava, cuspindo marimbondo. E como minha casa era longe, a 1h30 de distância, pelo menos, fui refletindo, baixando a poeira. No dia seguinte, volto exercendo o caminho da humildade (risos) e falo para ele me contar mais sobre. Até então, não tinha nenhuma chance de eu jogar vôlei profissionalmente, e ali o que ele estava me dizendo era o mais importante: eu tinha uma chance. Foi muito difícil no início entender que aquele era o único caminho para mim. Foram tantas variáveis acontecendo para eu jogar vôlei, que em dado momento comecei a achar que a posição (foi inventada) por pena daquela menina. Eram muitas coincidências, era meu último ano de juvenil, eu era a primeira a chegar e a última a ir embora, era pequenininha. E foi a posição que me deu a chance de sobreviver dentro do esporte.

Você começa a jogar em Macaé, em um time com Isabel e Márcia Fu. E, no ano seguinte, a Isabel monta uma equipe no Flamengo, como técnica. Em que momento você vê que o vôlei está dando certo e vai virar a sua vida?

– A Isabel sempre exerceu uma certa liderança nos bastidores, ia atrás de patrocínio. Era uma mulher empreendedora ainda sendo jogadora profissional. E ela aposta em mim como líbero titular. A Isabel vê alguma coisa em mim sem que eu tenha a vaga ideia do que ela estava vendo. Ela me traz para jogar com Virna, Leila e no Flamengo, meu clube do coração, onde joguei na base. Olhando para trás, eu falo: “A Isabel era maluca de me colocar de titular com esse elenco e a pressão que tinha sobre o time”. Não era um time para ganhar a Superliga, mas era o Flamengo, que não entra em competição para competir, entra para disputar título. Leila e Virna eram expoentes, fizeram parte daquela seleção que ganhou a medalha de bronze olímpica em 1996. Em 1999/2000, elas iriam para as Olimpíadas e ganhariam a segunda medalha. O Flamengo tinha muito holofote, foi um baita laboratório para mim. Acho que eu não estava preparada para assumir a titularidade. A minha trajetória é meteórica, mas de altos e baixos nesses três primeiros anos. Eu jogo essa temporada no Flamengo e, depois, a Isabel monta o time do Vasco. Eu não tenho proposta do Flamengo, e ela me convida para jogar no Vasco, como reserva de novo.

– Eu estava sendo reserva da Sandra, a primeira líbero do Brasil. No Vasco, eu reencontro a Márcia Fu, Ida, Raquel, Fernanda Venturini… Era um timaço. Flamengo e Vasco tiveram muitos problemas financeiros nessa época. No meio do campeonato, eu viro titular. Era muita pressão, era uma equipe montada para ser campeã da Superliga, e as meninas mais velhas me abraçam: “Vamos com a Fabi”. Um mês e meio depois daquele dia, fui convocada para a seleção brasileira. Foi uma coisa meteórica. Em 1998, surge o líbero e vou para o time de Macaé. Naquele momento, se você me falasse que eu iria para a seleção brasileira, daria a mesma risada que dei para o meu técnico quando ele falou que eu tinha chance de virar líbero. Foi uma coisa muito louca. Quando eu começo a jogar entre as titulares do Vasco, com o respaldo das mais velhas, penso: “Isso pode dar certo, pode dar bom”.

Fabi relembra parceria com Isabel, que a tornou titular no Vasco

Pelo Vasco, você participa da final da Superliga 2000/2001, contra o Flamengo, no Maracanãzinho. Como foi viver um dos jogos mais marcantes da história do vôlei brasileiro?

– Aquela final foi emblemática. Os dois times com problemas financeiros, mas conscientes do que o jogo representava. Era uma final de Superliga, com grandes estrelas e torcidas enlouquecidas, rivalidade no talo. Os pormenores são muito legais. Eu lembro dos elencos perfilados, e a Virna, que me conhecia, falando no túnel: “Fabi, é o Flamengo, teu time do coração”. Eu era jovem. Aquelas brincadeiras são uma maneira de intimidar o outro. Era muito engraçado esse bastidor do jogo. Um ano antes, eu estava no Flamengo, todo mundo sabia do meu amor pelo clube. Em casa, tinha uma limitação dos meus pais. Eu levava roupa do Vasco e só conseguia lavar, não podia secar. O que mais me marcou desse clássico é um daqueles elogios que você não entende em um primeiro momento, mas depois processa.

– Era uma série melhor de 5, e o Flamengo vence por 3 a 1, é campeão. Vou para o exame antidoping. Quando eu volto, está o doutor Eurico (Miranda, ex-presidente do Vasco) falando com todo mundo. Era um dos personagens mais emblemáticos da história do esporte. Chego atrasada por conta do doping, mas querendo participar da conversa final. Quando entro, ele bota a mão no meu ombro e fala: “Talvez vocês não saibam o que significa um Flamengo x Vasco. Essa aqui sabe”. E ele abraçado comigo. “Independentemente do que aconteceu, espero que entendam o amor por essa camisa, a dimensão desse clássico”. E o tempo inteiro me colocando como símbolo. Meu Deus, mal sabia ele que sou Flamengo. Que loucura.

– O Eurico via alguma uma coisa em mim, e eu achava que um dia ele perceberia que não sou Vasco. Mais à frente, percebi que aquele foi um dos elogios mais bonitos que pude receber. O que ele estava dizendo é que pouco importava se eu era Flamengo, Vasco, Madureira ou Bangu. O que ele estava destacando era a minha entrega ao time. Isso diz muito sobre profissionalismo. O Vasco tem uma participação muito importante na minha vida, na minha trajetória, mas isso não me faz menos flamenguista. Sou Flamengo para caramba. Eu queria ter aquele título de Superliga no meu currículo. Aquela atmosfera do clássico me marcou muito. Não sei se vamos ter alguma coisa nesse sentido, porque a Superliga tem muita paixão, mas estamos falando de algo muito marcante, da história acontecendo. Pude desfrutar daquele jogo, daquele bastidor, daquela tensão no ar só de imaginar um Vasco x Flamengo.

Flamengo e Vasco se enfrentaram nas finais da Superliga de 2000/2001

Como foi ser uma rubro-negra atuando pelo Vasco?

– Naquela época, não tinha separação entre vôlei e futebol. Dependíamos do desempenho do futebol para receber salário, entrar uma grana. Então, se não fosse Flamengo x Vasco no campo, eu torcia para o Vasco por uma questão de necessidade. Ganhei um Carioca pelo Vasco e tenho o maior respeito pelo clube. Consigo misturar essa admiração como rubro-negra. O Vasco foi muito importante para o Flamengo ser quem é, alimentar a paixão, a rivalidade. Naquele mesmo ano tem uma final do Carioca do futebol, o tricampeonato, gol do Pet, que eu assisto trancada na casa do meu tio em Matias Barbosa (Minas Gerais). Não tinha rede social, era outra época. Fiz contagem regressiva para o tri do Flamengo. Era um domingo de folga, e voltei a treinar como se nada tivesse acontecido, porque eu defendia o Vasco no vôlei. Foi uma época muito importante, que me forjou, por vivenciar essa pressão, estar junto com estrelas, trabalhar em um ambiente que ajudou a moldar minha personalidade como atleta.

E na hora em que o Eurico puxava o Casaca (grito típico do Vasco)?

– Eu tenho uma lembrança do Eurico, dentro do Municipal, fumando charuto no último degrau. Isso é inimaginável. Ele puxava o Casaca depois do jogo. Eu botava minha mão, mas não gritava, não (risos). Cantar, eu não cantava, mas fazia o ritual. Quem estivesse no lugar ia achar que eu estava cantando. mas isso não é desrespeito, pelo contrário. Reitero a importância do Vasco. Eu afirmo que viver aquela experiência, aquilo tudo, aquela loucura que é esse amor do torcedor por um time… Se Flamengo e Vasco jogarem peteca, altinha, vai ter gente torcendo.

Como foi seu primeiro contato com o Bernardinho?

– Jogar no Sesc-Flamengo do Bernardinho era um sonho para todo mundo, porque era o melhor time, sempre disputava títulos. Quando recebo o convite, demoro um tempo para realizar. Eu lembro que, pelo time de Campos, joguei os playoffs da Superliga contra o Rexona e perdi. No ritual de cumprimento na rede, a Fernanda falou: “O Bernardo vai te ligar”. Um jeito bem Fernanda Venturini. Como assim o Bernardo vai me ligar? Eu não tinha empresário. Fui embora para casa pensando nisso, dividi com o Luizomar (técnico de Campos na época), que disse: “Ele vai querer te levar, com certeza. Vai ser difícil te segurar”. O Rexona tinha um grande investimento, e eu voltaria para a capital. Joguei 20 anos de vôlei e nunca saí do Estado do Rio. Volto a morar na capital, próximo da minha família e em outra condição, vislumbrando seleção, Olimpíadas… Eu fui cortada dos Jogos de Atenas. Em alguma medida, era um recomeço. Eu precisava ir para um time com mais chances de brigar por títulos.

– Quando eu recebo a ligação e o convite do Bernardo para jogar, não tinha como não aceitar. Quando eu chego, em 2005, ele já era campeão mundial, olímpico, de tudo. O encontro foi maravilhoso, porque no treino o Bernardinho não tem aquela intensidade toda. Seria impossível aguentar, trabalhei 13 anos com ele. Em casa, eu falava: “Mãe, dá uns gritos de vez em quando para eu não me assustar muito”. Para ir pegando o jeito dele. O dia a dia no treino foi tranquilo, até que chega o primeiro jogo e ele inventa um acento no meu nome. Ele me chamou a vida inteira de “Fábi”.

Nas semifinais das Olimpíadas de Atenas, o Brasil abre 24 a 19 no quarto set contra a Rússia, mas leva a virada e perde no tie-break. Qual é a sua recordação do jogo?

– Eu estava em Campos. A gente treinava sempre meia hora depois do fim do jogo do Brasil. Era um sentimento dúbio. Quando o Brasil faz 24 a 19, eu estava naquela condição de fã, mas de quem treinava com aquelas meninas seis meses antes das Olimpíadas. Estava torcendo muito, ao mesmo tempo pensando: “Podia estar ali”. Quando faz 24 a 19, vou me arrumar, pego um iogurte na cozinha, busco a minha roupa e, quando ameaço desligar a TV, vejo o jogo acontecendo. Ué, já repetindo a partida? Eu paro, olho, e o jogo realmente está rolando. Pego a metade do tie-break e começo a assistir meio incrédula. O Brasil perde, vou treinar, vamos tentando entender o que aconteceu. E depois vem a consequência dessa virada histórica, inédita na era dos sets sem vantagem. Acho que nunca tinha acontecido algo parecido. Foi o recomeço da seleção brasileira, de uma reestruturação de time pelo Zé, de trazer jogadoras mais jovens. Virou um time com muita pressão para ganhar os jogos.

– Toda vez que você tinha uma pressão no placar para fechar o set, voltava aquela questão vivida em 2004. Então, Atenas só termina em Pequim. Mesmo sem viver diretamente a virada, muitas de nós viveram as consequências dela. Uma atribuição equivocada ao gênero e não ao desempenho do time. Em vez de debater tecnicamente o porquê de perder para a Rússia, vimos uma discussão generalizada e desmedida sobre o fato de tomarmos a virada por, na hora do vamos ver, as mulheres não conseguirem. O fato de, na época, termos pouco repertório para trazer argumentos fez com que alimentássemos um pouco a discussão, sem alguém falar “está errado”. Só conseguíamos encerrar o papo quando ganhávamos. Isso é muito cruel. Depois, com a experiência e o entendimento da situação, encontramos argumentos para debater com as pessoas. Tinha a ver com escolha errada, mal desempenho aqui e acolá. Em 2008, colocamos um ponto final nisso tudo.

Você falou sobre esse corte de Atenas 2004, que seria sua primeira edição de Olimpíadas. Qual foi o tamanho do impacto de ficar fora dos Jogos?

– É o primeiro grande baque profissional, não tenho nenhuma dúvida. Eu estava em Barueri, não tinha o CT de Saquarema ainda. O Zé e o Bernardo costumam protelar o corte. Na cabeça deles, estão tirando o sonho de um jogador, e isso também passa pela nossa cabeça em um primeiro momento. Eu me lembro do dia. Estávamos nos aproximando da data da viagem, e o Zé precisava cortar duas atletas. Uma seria Arlene ou eu, porque só ia uma líbero. Ela era muito mais experiente, consolidada e estava jogando muito bem. A gente torcia para o telefone não tocar, e uma hora ele toca. Não me despedi de ninguém, lembro do Zé cabisbaixo dando a notícia. Perguntei a ele o que eu precisava fazer para não sentir aquilo de novo, falei que não ia chorar e chorei para caramba. Ele disse: “Seguir com o que você faz hoje e ir em busca da resposta. É você quem tem que responder”.

– Vivi um luto de uma semana e, quando voltei para Campos, o Luizomar falou: “Aqui é o lugar em que você precisa resolver seus problemas. Treinando, treinando e treinando até ter outra chance”. Claro que é humano você atribuir ao outro uma culpa: “Foi ele que não me quis, foi um monte de coisa”. Mas, na minha vida, sempre tive uma coisa: a honestidade comigo mesma. Quando ponho a cabeça no travesseiro, sei porque ganhei ou perdi. Sei por que aquilo não deu certo. Em um primeiro momento, achei que a seleção não fosse para mim. Mas retorno ao clube, e o sonho de representar o Brasil já aparece de novo. Volto à seleção em 2005 e fico direto depois de superar o corte, esse grande revés que encaro como parte fundamental da minha maturação como atleta.

Fabi afirma que corte de Atenas 2004 foi o primeiro baque na carreira

Em Pequim, apesar da pecha de “amarelona”, a seleção brasileira perde só um set. Vocês chegaram às Olimpíadas pensando “o ouro é nosso”?

– Se você perguntar a todo mundo que estava em Pequim qual foi a derrota mais dura, onde encontramos o ponto da virada, foi o Pan de 2007. Tudo foi muito difícil. O fato de estar no Maracanãzinho…. Aquele time de Cuba era para brigar por medalha, mas tínhamos elenco para ganhar delas. Com a nossa família ali… o contexto foi muito complicado. A celebração delas foi difícil de engolir, sambaram no pódio (risos). Eu me lembro de a gente pensando: “Vamos olhar para não sentir isso de novo”. Ao mesmo tempo, como não tínhamos argumento para rebater esse discurso de que amarelávamos nas horas decisivas, começamos a acreditar nisso de alguma forma. Talvez o Brasil não conseguisse na “hora do vamos ver” mesmo. A derrota de 2007 é uma ruptura. Já me arrepio só de pensar na nossa reapresentação em Saquarema, pelos discursos, conversas. Você já está mais cascudo e, quando sente essa atmosfera de todo mundo, sabe que vai buscar a medalha.

Fabi diz que derrota para Cuba no Pan 2007 foi o ponto de virada para Pequim 2008

– As coisas vão indo, e chega a fase final do Grand Prix (de 2008). Atropelamos todo mundo, e aí tem uma entrevista maravilhosa, que o Zé sempre relembra quando me encontra. Ele estava conversando com a Federação Internacional, e o entrevistador era o (Andrea) Zorzi, ex-central da seleção italiana. Depois do papo, Zé vem até mim e diz: “Acabei de dar uma entrevista. O Zorzi me perguntou se o time não tinha chegado ao ápice antes das Olimpíadas, e mandei ele ver o que o Brasil iria fazer nos Jogos”. Falei: “Zé, você é doido?”. Ele tinha ficado pu** com a pergunta, como se a comissão não estivesse se programando para a seleção atingir o auge nas Olimpíadas. De fato, a nossa atuação no Grand Prix foi muito impactante, começamos a impressionar todo mundo, reforçando a confiança que passamos a ter depois da derrota de 2007. Essa passagem é muito engraçada. Toda vez que eu via o Zorzi nas Olimpíadas, falava: “O melhor está vindo”. Perdemos um set em Pequim. Quando acabou, falei para o Zé: “Procura o Zorzi para dar entrevista para ele” (risos). São coisas que lembramos com muito carinho.

Como foi viver os Jogos Olímpicos pela primeira vez? Entrar na Vila Olímpica, ver tantos atletas ao seu redor, experimentar aquilo.

– O Zé pediu para entrarmos na Vila três dias antes, porque metade do time nunca tinha ido às Olimpíadas. Há um deslumbramento natural, com credencial, chave do quarto, todas aquelas pessoas ao redor: “Caraca, estou dentro da televisão. Estou dentro do lugar onde os meninos de 92 estiveram. Meu Deus, o que é isso aqui?”. São uns dois dias de deslumbre. Não dava para não deixar de lado essa parte de fã. Eu andava com máquina fotográfica para fazer os registros. Não fomos na cerimônia de abertura, porque era muito desgastante. Olimpíadas são um lugar em que 10 mil disputam e dois mil saem com medalhas. Os pormenores contam muito para o resultado final. Era comum dizerem: “Se encontrar um atleta com medalha na Vila, tem que aplaudir”. Começamos a pensar: “Queremos a nossa hora de receber aplausos”. Depois da final, chegamos na Vila às 2h da manhã e nos aplaudimos (risos).

Você tem alguma recordação do ambiente no vestiário antes da final olímpica de 2008?

– O vestiário me marcou menos do que o treino da manhã. Eles tinham muitas dúvidas do que fazer para nos motivar, se passavam mensagens da família ou algo assim. O Zé achou que isso poderia mexer demais conosco e não fez nada. Mas o discurso dele… Você vai jogar a final olímpica às 20h, o dia não passa, é interminável, então o treino da manhã é a única maneira de dividir as ansiedades. Em teoria, era para chegar na final Cuba ou Itália, mas chegaram as norte-americanas, o que trazia para elas um papel de franco-atiradoras. Quando o Zé terminou o treino, ele falou que a gente merecia o ouro, que tinha orgulho do time. No final, disse: “Queria muito que vocês me ajudassem a recuperar a metade de mim que ficou em Atenas”. O Zé não estava se emocionando, estava abrindo o coração, sendo verdadeiro. “Eu nunca mais fui o Zé inteiro”. Cara, aquilo foi pegando cada uma de um jeito. E ele com muito cuidado para não fazer do último treino algo de muita emoção, fora do tom. Essa conversa me marcou demais. Quatro anos antes, ele tinha me cortado de uma Olimpíada, não é fácil para o cara também. Foi a maneira que ele conseguiu de humanizar aquele momento de tensão, trazendo motivação em um sentido humano. Esse discurso foi impactante, bonito, comovente e serviu como combustível fundamental para aquele dia interminável.

Fabi cita discurso antes da final olímpica: Me ajudem a ser um Zé inteiro depois de Atenas

Qual foi o primeiro pensamento que veio à cabeça ao subir ao pódio em 2008, 10 anos depois do surgimento da posição de líbero?

– Cara, tem uma coisa que me leva sempre ao lugar de fã. Nas minhas fotos de pódio, estou chorando muito. A cerimônia passa rápido. Você pensa que precisa viver o momento, mas não tem controle. Vem esses pormenores que ninguém vê: “como eu cheguei aqui? Muita coisa indicava que eu não chegaria”. Do meu lado, está a Fofão, que é a primeira pessoa que eu abraço quando a última bola do jogo vai para fora. Na minha estreia no adulto, fiquei nervosa porque cumprimentaria ela na rede. É uma enxurrada de lembranças, memórias, pessoas, e passa voando, assim. A única chance de ouvir o hino é ganhando um ouro olímpico. Uma das primeiras lembranças foi a quadra de Irajá, o futebol, a solidão de menina. E a televisão de 92, o saque do Marcelo Negrão, a narração. É uma maluquice, não dá para acreditar, não.

Antes das Olimpíadas de Londres, em 2012, Zé Roberto dispensa Fabíola e Mari, em decisões muito comentadas na época. Os cortes foram traumáticos para o grupo da seleção?

– Todo corte é difícil, até o esperado. Você vai treinando no dia a dia, percebendo quem tem um desempenho melhor. Há também questão de convivência, porque o vôlei é um esporte coletivo. Não tem como ficar indiferente ao que o outro está sentindo. Vivi altos e baixos depois de Pequim, como atleta, especialmente em 2011. Hoje conseguimos dar nomes para muitas coisas, no passado era uma conversa difícil falar sobre vulnerabilidade, chorar era atribuído a fraqueza. Tive um ano muito duro, no aspecto pessoal. Fiquei muito perto de ir no meu limite e só tinha a opção de seguir em frente. O esporte vai além das relações de amizade, traz cumplicidade. Muitas vezes, você vai ganhar ao lado de pessoas com quem tem uma relação superficial, mas por quem mataria e morreria dentro de quadra. Os cortes foram muito difíceis. Se não me engano, a dispensa da Fabiola foi anunciada no aeroporto, voltando do Grand Prix. Acho que a saída da Mari veio antes, ainda em Saquarema.

Você se surpreendeu especificamente com o corte da Mari, que era titular e tinha sido ouro em Pequim?

– Acho que foi surpreendente em certa medida, sim. O da Fabíola também… A Dani (Lins) tinha ficado muito tempo de fora de algumas etapas. É engraçado, porque, durante os jogos, uma hora você tinha certeza de uma coisa, outra hora de outra. O Zé não deixava claro o que vinha pela frente, criou esse ambiente para ninguém se acomodar. A Mari era campeã olímpica. Quem acabou indo para essa Olimpíada foi a Tandara, muito jovem. O Zé não deixava brecha para a gente pensar, era: “Vamos até o fim para ver o que acontecerá”. Em dado momento, você fica feliz porque vai às Olimpíadas, mas não fica indiferente porque (o corte) poderia ter ocorrido com você.

Fabi lembra cortes e explica como seleção foi de quase eliminada a bicampeã olímpica

Em Londres 2012, vocês tiveram um início instável, que muda após a vitória sobre a Rússia nas quartas. Internamente, qual foi o ponto de virada para o Brasil nas Olimpíadas?

– O fundo do poço. Chegamos ao limite. É muito pouco provável ter duas chances em uma única edição de Olimpíadas, e nos questionamos: “O que fizemos de errado?”. O Brasil ser eliminado na primeira fase seria uma tragédia. O jogo contra a Coreia foi determinante, porque sabíamos que não dependia mais de nós. Ganhamos da China por 3 a 2, e depois veio a Sérvia, em um duelo que ocorre depois do resultado que poderia ter nos eliminado, entre EUA e Turquia. O fundo do poço foi o lugar que visitamos. O Zé fez uma reunião e falou para cada uma das que estavam ali, em meio a esses cortes difíceis, o porquê de ele ter nos escolhido. Isso foi bonito. Você escuta coisas legais e verdadeiras. É legal ver o líder de um time, que tinha duas medalhas de ouro olímpicas, se mostrando vulnerável, falando: “Vamos juntos”.

Como foi o vestiário do primeiro para o segundo set da final contra os Estados Unidos em Londres? Daquela vez, elas eram as favoritas e fizeram 25 a 11 na parcial inicial. Depois, o Brasil conseguiu a virada, vencendo por 3 a 1.

– De um set para o outro, começamos a jogar vôlei (risos). As americanas eram muito favoritas, foram dominantes no ciclo, tricampeãs do Grand Prix, e a Hooker estava voando na época. Estavam muito confiantes, e nós nos assustamos, respeitamos demais. Elas podiam ganhar, mas não sem nós lutarmos. Esse primeiro set durou 25 minutos, nos quais revisitamos tudo o que aconteceu na primeira semana. Não tínhamos chegado ali por acaso. Ressurgimos das cinzas para disputar a final: “As campeãs olímpicas somos nós, muita calma nessa hora”. Só queríamos jogar melhor. As disputas na rede não têm contato físico, mas têm um contato que é tão determinante quanto um chega pra lá: o visual. A mudança é tão abrupta e impactante que começo a ver nos olhos das americanas: “O jogo não vai ser fácil”. Dava para nós ganharmos.

– No segundo set, assentamos as coisas, oferecemos resistência e ganhamos confiança. A responsabilidade estava lá, mas as campeãs olímpicas éramos nós. Pode perguntar para as meninas se em dado momento você não vê a insegurança estampada no rosto das jogadoras do outro. O Brasil tem uma camisa pesada, com história, e as pessoas sabem disso. Tenho certeza que, por mais que estivéssemos jogando mal, se a seleção brasileira chegasse à decisão, talvez sem esse roteiro de Woody Allen, Almodóvar, todo mundo nos respeitaria em um jogo eliminatório pelo peso da nossa camisa. O que se viu nos três últimos sets foi uma confiança inabalável de um time que não deu chances. Algumas das americanas viveram a derrota na decisão de 2008 e sentiram o impacto. Seis de nós também estávamos em Pequim, assim como o Zé.

Você se aposenta da seleção brasileira em 2014, a dois anos da primeira e única edição dos Jogos Olímpicos na sua cidade. O que te fez parar no meio do ciclo?

– O atleta vai compreendendo o fim dos ciclos. Eu me lembro perfeitamente quando começa esse clique. Foi em 2012. As Olimpíadas foram tão duras, que, quando acabou, senti alívio. Consegui, entreguei, me doei para esse time. Eu já tinha na minha cabeça que alguma coisa não estava legal, pessoalmente falando. Experimentava uma alegria e ao mesmo tempo uma tristeza. Eu vivi 2013. Aproveitei muito aquele ano. E tinha uma menininha, a Camila Brait, cada vez mais me dando trabalho. A competição entre nós foi muito legal em diversos aspectos, sobretudo em como uma estimulava a outra. A cada ano, ela evoluía e me empurrava para cima, e eu tinha que fazer cada vez mais força. Em 2013, eu já estava com uma sensação de dever cumprido. Foi como se tivesse feito uma análise de tudo que aconteceu na minha vida, coisas boas, ruins. E a conclusão que chego é que vivi muito mais coisas do que imaginei viver. Fui muito além. Para disputar uma Olimpíada em casa, não tem atalho: ou você está 100% ali, ou as coisas não vão dar certo. Eu estava mentalmente cansada de tudo e pensava que, talvez, meu ciclo tivesse se encerrado na seleção.

Fabi explica por que se aposentou da seleção no meio do ciclo até a Rio 2016

O Zé Roberto tentou te convencer a permanecer na equipe nacional?

– Quando vou a Saquarema, não quero conversar, vou para comunicar. Estava decidida (a deixar a seleção). Não tinha absolutamente nenhuma pessoa que me fizesse voltar atrás. Acho até que o Zé imaginou que eu pudesse reconsiderar. Tenho a recordação do caminho que fiz para ir e a sensação de voltar para casa. Volto e vou comer em uma churrascaria. Eu estava muito tranquila. Tivemos, eu e Zé, uma conversa muito bonita, ficamos mais de uma hora. Foi a primeira vez que ele abriu o coração para mim sobre tudo. Falou coisas que nunca tinha falado para mim, de agradecimento, de reconhecimento. O treinamento na seleção é tão exigente, que às vezes criamos uma capa dura e esquecemos que estamos lidando com gente. O Zé disse depois que achava que eu ia repensar a aposentadoria da seleção. Quando vi o desempenho da Camila Brait no Mundial de 2012, já me sentia em paz. Ela jogou muito, e aquilo me deu conforto. Já vivi tudo, está tudo bem, a seleção vai continuar. Eu me peguei assistindo àquele Mundial tranquila. Amo os anos que fiquei na seleção, tudo que vivi lá e saber que as coisas seguiram. Não adianta ter conhecimento, vivência e não poder dividir com as pessoas.

Em nenhum momento você se pegou pensando “e se eu tivesse jogado nas Olimpíadas de 2016”?

– Sabe que não? Todo mundo que toma uma decisão na vida tem medo de se arrepender. Mas não me arrependi. A Brait me deixou tranquila, depois veio a Léia. Se eu falar que nunca mais senti falta, é mentira. Entrar no Maracanãzinho, ver o ginásio lotado… Mas, para chegar ali, tem que treinar. Passei a ter outros objetivos, mudei o foco, comecei a pensar em construir a minha família. Se você me perguntar do que eu sinto falta, é do vestiário. Cara, me desprender daquele ambiente ali foi muito mais difícil do que imaginei. Sinto falta de ouvir o hino, jogar uma Olimpíada. A saudade de jogar é para sempre. Mas o que mais me doeu foi a saudade do vestiário. Ali é um lugar sagrado para os atletas. Acontece de tudo. É um atleta que poucas vezes o público vai ver. Nervoso, ansioso, feliz, triste, com dúvida, ouvindo música. Acho que é um ambiente incrível. Eu adorava falar alguma coisa, buscar uma solução. A quadra, a bola, a questão física e mental são primordiais, mas tem um mistério no vestiário que ajuda a contar essa história. Como aquele ambiente me faz falta…

Você tinha algum ritual?

– Eu tinha muitos rituais. Atleta vive de ritual, eu acho (risos). Alguns denominam superstição. Eu adorava o pipi da sorte, a ordem de bater na mão das atletas, a ordem de falar, o esparadrapo que tinha que estar ali por algum motivo, muita coisa. Em dia de jogo, eu detestava sair de casa.

Qual é a sua lembrança mais marcante de vestiário?

– Eu gosto de lembrar da gente sentada em uma roda na primeira final olímpica. É muito emblemático aquele clima de tensão misturada com confiança. Em 2008, a gente usava fone. Em 2012, tem um avanço para a caixinha de som. E eu era sempre pulada na hora de escolher a música, porque, segundo elas, meu gosto era duvidoso. Gosto de MPB, uma coisa não muito animada. Eu achava o máximo. Acompanhei essa mudança de geração de vestiário. Convivi com um grupo que fumava cigarro, algo comum na época. Vi isso se dissipando, de cada uma na sua música para aquele vestiário do som mais alto, da maquiagem. Há várias mudanças sutis. O vestiário é um lugar poético para mim, o ritual de prender o cabelo, a coisa do pipi da sorte, que é maravilhoso, quem faz xixi por último. Talvez as pessoas nem entendam. Como assim? O atleta tem essa cabeça meio doidinha, mas no final dá certo (risos).

Qual é o lugar que você ocupa na história do vôlei?

– Eu não faço ideia. Não sei, bicho. O líbero nunca fez ponto. O pessoal brinca que eu deponho contra. A beleza do líbero está no altruísmo. O líbero é uma posição que foi feita para servir ao time. O meu olhar para a vida, para o mundo, para as pessoas, quando eu penso na Fabiana mulher…. Metade da minha vida foi vivida por meio desse sentimento de servir, dessa vivência do esporte. Jogar como líbero foi uma das experiências mais impactantes da minha vida. É um exercício diário de humildade. Essa posição foi criada para ser mais uma, porque você não faz um ponto em um esporte que vive disso. As pessoas vão falar: “Viu que a Sheilla salvou tantos match points?”. O líbero, por mais que tenha jogadas lindas, é muito mais o coração do time, naquele lugar do operário que passa despercebido.

Como recebeu a notícia de entrada no Hall da Fama?

– Achei que fosse brincadeira. É muito comum que você seja lembrada e ganhe daqui a cinco ou seis edições. É só você olhar para a história que estou contando aqui. Estava de férias, o cara me liga e pergunta se eu poderia dar um testemunho sobre a posição de líbero. Claro, lógico. Quando ele vem com papo de Hall da Fama, só penso: “Você está brincando”. É muito louco quando eu olho para trás. Se alguém dissesse: “Fabi, você vai ganhar duas medalhas de ouro olímpicas, vai conhecer seus ídolos, viajar e no fim das contas vai terminar em um grupo seleto de atletas históricos”. Você está de brincadeira comigo (risos). Jamais imaginei que pudesse acontecer algo próximo disso.

Você falou da vontade de construir uma família ao deixar a seleção brasileira. Em 2019, nasce Maria Luiza, sua filha. Fale um pouco sobre esse seu lado mãe.

– Sempre pensei em ser mãe. Desde garota, era aquela que parava para brincar com as crianças. Quando fui amadurecendo, crescendo, entendendo minha orientação sexual, percebi os caminhos. “Poxa, será que vou ser mãe? Como vou fazer isso acontecer?”. Vivo a experiência do esporte, a medicina evolui. Era um sonho que vinha e se dissipava, na maturação enquanto mulher gay. Demorei para caramba para falar: “Sou gay, gosto de mulheres”. Demorei muito para falar isso com tranquilidade. Tive minha primeira experiência com 17 ou 18 anos e achei que aquilo era o maior absurdo da vida, comecei a me contestar. Minha construção enquanto mulher gay tem um período de maturação das minhas convicções. Conheço a minha esposa, com quem estou até hoje, vamos nos consolidando como casal e começamos a pensar em filho. Em um primeiro momento, eu tinha vontade de gerar. Pela falta de conhecimento, de não saber das possiblidades… Falar em ter filho enquanto atleta 10 anos atrás não era uma coisa simples, tinha que parar de jogar, de ter um salário. Era uma programação minuciosa para que isso acontecesse. Vimos algumas gravidezes sem planejamento, e estava tudo bem. No meu caso, tinha que ser planejada, o que envolvia também a questão do doping, porque alguns medicamentos podiam cair no teste. Então posso ser mãe sem gerar um filho? Você vai começando a perceber outras possibilidades.

– Saio da seleção em 2014, quatro anos depois paro de jogar, e tudo vai acontecendo, com aquele sonho de ser mãe. Em 2017, começamos a pensar sobre isso. A Julia (esposa) não engravidou de primeira, não deu certo, e foi um momento muito difícil. Nessa bateria de exames, ela descobriu um tumor na tireoide e operou enquanto eu estava jogando um Mundial de Clubes no Japão. Aquilo foi duro: “Está na hora de eu pensar em parar de jogar”. Queria estar perto da minha família nessa construção de ter um filho. Na segunda tentativa, vem a calhar de eu estar parando de jogar, e a gente descobre a gravidez. Tínhamos nossos temores enquanto família, sobre como criar um filho neste mundo e na composição de família homoafetiva. Vivi coisas malucas, improváveis, inesquecíveis, mas nunca algo parecido com o que ocorreu no dia 2 de julho, às 7h59 da manhã. Você se torna mãe naquele momento, mas também tem um olhar para a sua companheira que é uma das coisas mais incríveis. Estamos juntas há 13 anos. Tenho um amor antes e depois da Maria. O nascimento da minha filha foi uma das vivências mais incríveis, um dos momentos de maior gratidão. Foi um pódio em uma Olimpíada em que eu não era favorita e saí me sentindo a pessoa mais importante. Eu me senti preenchida. Depois, vem o desafio maior, que é criar um ser humano. 2 de julho é o dia mais celebrado internamente, eu comigo mesma. Com os medos, as dúvidas, as inseguranças. Tenho a data de aniversário e a hora em que ela nasceu tatuadas.

Fabi se diz realizada com o sonho de ser mãe: “Uma das vivências mais incríveis”

Como o esporte te recebeu depois que você resolveu falar sobre sua orientação sexual?

– Fui muito acolhida. O esporte é excludente, porque é um lugar para alguns, pouco convidativo para pessoas fora do padrão. Mas, no ambiente profissional, até uns 10 anos atrás, eu falava que nunca tinha sofrido preconceito. Acho até que é uma inverdade, eu não estava certa. Devo ter sofrido, mas nunca percebi. O Brasil é um país homofóbico, conservador, racista. Meu olhar não estava tão preparado naquele momento. No dia em que a minha orientação sexual deixou de ser um desconforto e passou a ser morada, nada do que fosse feito ia passar batido. Eu estava muito segura para falar, questionar. Sempre fui uma pessoa muito firme. Muita gente diz que eu demorei a me abrir. Demorei. As pessoas também demoraram para perguntar, tinham medo. A sociedade nunca esteve preparada para falar sobre certos assuntos.

– Entendo quando um atleta não quer falar sobre temas espinhosos, se posicionar politicamente, comentar orientação sexual. Há ônus e bônus, não é simples. A literatura me salvou nesse ponto. Não consigo falar com você sem antes ser quem sou: uma mulher gay, jogadora de vôlei, mãe da Maria e um monte de outras coisas. A partir do momento em que me empoderei disso e percebi que não tinha como separar as coisas, foi só alguém me perguntar. No dia que alguém falou, eu falei. Vim de uma geração na qual você escutava sobre ser gay ao pé do ouvido. Não tinham muitas pessoas que te encorajavam a sair do armário. O que imagino de mundo ideal é que você consiga estimular outras pessoas a serem elas. É muito libertador ser quem você é.

Fabi explica a decisão de falar abertamente sobre sexualidade

Diga alguma coisa que não sabemos sobre você.

– Muitas crianças que eu encontro falam: “E aquela bola com o pé?”. As pessoas olham uma jogada como algo impossível, marcante. Adoro lembrar desse momento, por mais que seja narcísico, como algo que me teletransporta para a minha infância. Aquela bola com o pé (choro)… conversa com uma menina que só queria jogar bola quando era garota. Meu pai falava para a minha mãe: “A tua filha está lá embaixo”. Aquilo, para ele, era cuidado, naquele momento eu era filha da minha mãe. Aquela bola com o pé me leva para Irajá, para aquele dilema. Eu só queria brincar de bola com os meninos, eu jamais ali estava pensando em alguma coisa diferente disso. Queria brincar, me divertir, viver a infância. Essa jogada me leva a um lugar da solidão: “Não tem nenhuma menina aqui, não posso nem justificar para a minha mãe”. Ao mesmo tempo, criei bons argumentos. Como eu convenço a minha mãe a deixar aquilo acontecer? “Mãe, no dia que você abrir a janela do quarto e eu não estiver brincando com os meninos, aí você pode ficar preocupada”. Minha mãe olhou para mim e pensou: “O que essa garota está falando?”. No fim das contas, eu estava certa, mesmo com 12 anos.

– Meu pai era taxista, e muita gente conta que pegou táxi com ele. Eu digo: “Ele mostrou aquela bola de Londres?”. Com aquela bola com o pé, eu me transformo na filha do meu pai. Lá atrás, eu era a filha da minha mãe. E o meu pai, que só sabia apertar o verde e o vermelho no celular, aprendeu a colocar aquele vídeo, e todo e qualquer passageiro ouviu que ele era o pai da Fabi e viu aquele lance em looping. Eu brincava com ele: “Você contou a história toda (risos). Tem senão, hein”. Eu gosto desse lugar, dessa mistura que o esporte tem com a menina, com a infância, o gênero, o subúrbio, a questão social, de como o esporte me trouxe essa capacidade de me infiltrar, de achar um jeito para as coisas. Esse lance é muito legal, emblemático, porque acontece numa Olimpíada, reverbera, fala sobre uma jogada inusitada, mas no meu coração ele tem um lugar que justifica tudo. Eu gosto muito de literatura, ela me salvou em Saquarema, nos momentos mais difíceis. Tem uma frase do Guimarães Rosa, meu autor favorito, que traz toda essa beleza: “A felicidade se encontra nas horinhas de descuido”. É muito bonito. As horas de descuido são quando ninguém está vendo, é só você com você e suas dúvidas. A hora de descuido está na beleza de toda essa jornada, o descuido daquela menina que só queria driblar um amigo, tirar onda e se divertir.

Fonte: ge